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AH,
AS MULHERES DE VINTE
Mário Prata
Ah, as mulheres de vinte anos!
Entre vinte e trinta. É o que há de melhor em mulheres no Brasil. E, antes de
ser tachado de velho tarado, aviso: não estou falando do corpo, não. Mas da
cabeça. É a cabeça menos preocupada em se tornar linda fisicamente. São
lindas, simplesmente são. Desde a geração da minha bisavó (nascida no final
do século 19) eu não vejo mulheres brasileiras tão autênticas. Tão elas. São
elas, entre 20 e 30.
E eu acho que eu vou arriscar um palpite. Elas
são filhas do que já houve de mais doido e revolucionário neste Brasil. São
filhas de ex-hippies, ex-lideres políticos estudantis ou de outras minorias,
filhas de pai que já fumaram (e a maioria tragou), filhas de quem viu o homem
subir no espaço e dizer que a terra é azul e, especialmente, filhas de
feministas quase ortodoxas. Enfim, filhas de uma geração que lutou para abrir
portas.
Os seus pais, por serem iniciantes (além de
muito jovens) em suas rebeldias, foram extremamente radicais. Me lembro de uma
amiga feminista que não admitia que um homem segurasse no seu cotovelo para
ajudar a atravessar a rua. Mas as mulheres de vinte não são feministas, são fêmeas.
Ponto.
E as mulheres, que hoje têm entre 20 e trinta
anos, souberam amenizar todo aquele nosso radicalismo. Parece simples, mas já
nasceram com a sabedoria e a revolução que seus pais fizerem. Alguns, até
morrendo.
Tudo isso além, é claro, daquela tatuagem
que entra para dentro do biquíni, só pra gente ficar imaginando o que é
aquilo e onde vai dar. Além, é claro, daquela orelha cheia de brilhantezinhos.
Além, é claro, daquela certeza de quem sabe que é. Além, sobretudo, do tom
que vai do cor-de-rosa ou jambo verde-amarelo.
Antes mesmo de começar a escrever sobre você,
que tem entre 20 e 30, recebi um mail de uma de 22, jornalista e emancipada:
“Meu querido, mulher de 20 e poucos anos, não
fica rindo quando fuma um baseado, não. Fica sim, louca para ficar, para
experimentar todas as sensações que, por ter 20 e poucos anos, ela ainda
não conhece. E não há nada mais excitante do que a curiosidade - principal
qualidade da mulher de 20. E com 20 anos essa curiosidade vem livre de medos e
receios, pronta para usar e aguçar.
Mas o melhor de tudo é que com vinte e poucos
anos vc acredita que a vida é simples; que nós vivemos do que acreditamos;
amamos tudo e todos, queremos dar e receber muito amor; conhecer gente, trocar
energias, pegar um pouquinho de cada pessoa que passa pela nossa vida, desejar
apenas fazer o bem, ser uma pessoa boa. Papinho bicho grilo este, né? Pode ser,
mas tão mais saudável do que pensar na barriguinha que tá crescendo, no botox
que é caro, no cabelo que precisa de escova, no medo de envelhecer e etc”....
Ah, as mulheres de vinte... Abreviam tudo!
A maioria delas já é mãe. São mulheres que
convivem com filha, mãe e avó. Algumas até com bisavó. Apenas elas podem
tirar proveito de viver um século inteiro sem sair de si mesmas. Aprendeu com a
avó, com a mãe e agora se assusta com a própria filha. Que não a chama de
senhora, onde já se viu? E a enfrenta na frente “das visitas”.
Demorou um século para surgirem as mulheres
de vinte. E nos puseram nos nossos devidos lugares. Admiradores, fãs e, porque
não dizer, pai de uma delas que me ensina, diariamente, que viver não é tão
complicado assim. Basta ter vinte anos. Sempre. Mesmo tendo acabado de fazer 58!
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