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MISTÉRIOS
GOZOSOS
Affonso
Romano de Sant'Anna
Uma
coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.
Reparem,
estou dizendo, depois que ama. Não estou me referindo a ela enquanto está no
ato do amor.
Disto
se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema,
modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a
mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da
alma.
Mas,
quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a
envolve após o gozo ou gozos e que perdura horas e horas e às vezes dias. Fica
macia que nem gata aos pés do dono. Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
Sua
alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
A
vida não transcorre mais a contrapelo. Desliza. Ela tem vontade de conversar
com as flores, com os pássaros, com o vento. Sobretudo, descobre outro ritmo em
sua carne. É tempo do adágio, de calma e fruição.
Neste
período, aliás, o tempo pára. Em estado de graça ela se desinteressa do
calendário. O cotidiano já não a oprime.
As
tarefas da casa, pesadas em outras ocasiões, tornam-se leves, os compromissos
mais enjoados podem ser acertados, as tragédias dos jornais já não lhe dizem
tanto respeito.
O
trabalho do escritório torna-se leve, pode ser feito quase cantando.
Algumas
desenvolvem uma súbita necessidade de tecer, outras de aninhar. Querem bordar,
costurar, arrumar coisas na casa, entram em clima de nidificação. É a hora de
uma ociosidade amorosa. Outras querem presentear o amado e o mundo com pratos
sutilíssimos e saborosos. O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do
trivial, se angeliza e glorificada, pervaga pela casa.
O
homem, animal desatento, às vezes não se dá conta. Em geral, nunca se dá
conta. Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se
deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade
clandestina.
Na
verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria
suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura.
Deveria
o homem avisar ao escritório: hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação
do amor naquela que amo. E como isto se assemelha à floração rara de certas
plantas, os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e
ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a
deslanchar.
Já
vi algumas mulheres assim. Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam
levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram. Há uma coisa grave na
mulher que foi ao clímax de si mesma. Que não esteja distraído o parceiro ou
parceira. Ela tem mesmo um perfume diverso das demais. É um cio diferente. É
quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila
que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
As
outras mulheres percebem isto e a invejam. Os machos farejam e se perturbam. É
como se estivessem num patamar seguro a se contemplar. É quase parecido a
quando a mulher vive a maternidade. Mas aqui é ainda diferente, porque na
maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela. Contudo, nessa
atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, é diverso, porque ela
está acariciando uma imponderável felicidade.
Estou
falando de uma coisa que os homens não experimentam assim. O gozo masculino é
mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato. Só os
escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de
si.
Mas
em geral, é diferente. Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem
como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas
ansiedades e voltam ao trabalho.
É
constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força,
alegria, energia. Ele oscila entre Alexandre o Grande e o artista que chegou ao
sucesso.! Também brilha. Mas é diferente. E não é disto que estou falando,
senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções
por horas e dias a fio.
Freud
andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou
equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser
este um animal fálico, etc.
Convenhamos:
inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que
ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si
mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da
barreira dos gemidos e amorosos alaridos.
É
isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera
sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas estáticas
descreveram. Uma aura de mistérios as envolve.
E
isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe
aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram. O limite é a sua consciência.
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