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ONDE ESTÃO OS NATAIS DE
ANTANHO?
Dalton Trevisan
Insinua-se pela cortina de veludo vermelho —
úmida e pegajosa —, afasta a mão com nojo: filho bastardo do rei Midas, tudo
o que toca se desfaz em podridão. No rosto o bafo quente da sala; entre casal
suspeito e velho pervertido e o seu abrigo.
Senta-se na última fila, os pés sobre cascas de amendoim, pipoca, papel de
bala. Alheio às sombras na tela, enfrentará a passagem do Natal.
Escorraçou-o do bar a celebração ruidosa dos bêbados. Mais que ela, dois
olhos aflitos no espelho da parede... Exílio de negridão viciosa, no cinema
está defendido. Distingue a tosse do guarda que, vez por outra, circulando no
corredor, assusta os casais de tarados. No canto, a lâmpada amarela sobre a
cortina que, ao ser erguida, espalha nuvem fétida; pela sua agitação
incessante, o interesse do público é mais lavar a mão do que assistir ao
filme.
Entorpecido de álcool e do ar corrupto, cabeceia na cadeira dura. Uma voz melíflua
pede-lhe docemente licença, enrosca-se no seu joelho — de todas as cadeiras
vazias escolhe a do lado.
Sonolento, mal sustém a pálpebra aberta. Mascando e soprando a goma de bola, o
mocinho a explode com beijo obsceno.
Patinhas de mosca na face, João espanta-a com a mão. Mosca não, o óculo
brilhoso da criatura grudado no seu rosto: uma loira de voz rouca senta-se na
cama. Estende a perna roliça, que o tipo lhe descalce o sapato. Ele arranca
brutalmente o sapatinho dourado. Não é assim, meu amor, assim não. Repete o
mocinho no sopro da bola:
— Não gosto de bruto.
O herói resmunga, a camisa estraçalhada de mil tiros — por amor dela
bateu-se com o vilão? A loira estira a outra perna: Não sou a sua gatinha?
— Gatinha não sou? — a queixa lamuriosa ao lado.
Com as duas mãos, o tipo a descalça e beija a ponta do pé. Bem assim, meu
amor. Sabe ser gentil.
O olho do mocinho escorre-lhe no rosto — baba fosfórea de lesma —, sem
perder a legenda:
— Vai ser gentil, amor?
O durão de pé, a heroína à beira da cama; ergue o vestido de cetim
brilhante, desprende a meia da cinta, oferece a linda perna comprida — mão
tremente, ele enrola a meia desde a coxa. Raivoso, atira-a no tapete.
— Quieto, benzinho.
— Quietinho, meu bem — a voz aliciadora é sufocada pela tosse do guarda.
Pisoteando cascas, novo espectador instala-se duas cadeiras na frente, revolve o
pacote de amendoim, chupa frenético o dente.
Estou doente, vou morrer — lamenta-se o machão, atingido pela bomba de
cobalto, no deserto de provas ocultou-se da policia. Minha carne é gélida.
Bala de revólver não a atravessa metade homem, metade monstro de ferro.
O maníaco do amendoim assobia, o mocinho rumina a bola, João sofre as penas do
herói.
Agora a loira corre o fecho do vestido, a nudez entrevista: Eu sou Rosinha.
Posso derreter o aço. Sei abrasar o corpo gélido.
— Rosinha... sei abrasar... — insiste o eco suspiroso do mocinho.
Rebenta a bola de goma, esbarra-lhe no joelho e, entre as cadeiras vazias,
senta-se ao lado do chupador de dente. Na tela a heroína furiosa rasga a camisa
do tipo, descobre o ombro sardento. Unhas rapaces enterram-se — apesar do
metal — na carne fofa.
João estremece: uma ratazana ali no corredor? Prestes a levantar-se, enxuga a mão
no joelho.
À sua frente cochicha o moço com o vizinho, que deixa de assobiar. João não
ergue o pé, e mordendo o uivo, segue a corridinha da ratazana. Virá, em seu
passeio tonto, enroscar-se no sapato e atarantada subir na perna?
No silêncio da sala escuta o alarido do peito. O guarda não tosse, o maníaco
não assobia, apenas o crepitar das cascas, agora mais perto.
Violado o santuário, outra vez em pânico: uma gota de suor brinca-lhe na pálpebra.
Perdido com as vozes sem respostas: Onde está minha casa, minha mulher onde está?
E onde estão afinal os Natais de antanho?
Luta com a imagem na tela, repete em voz baixa a legenda. Surgem das cadeiras
vazias as filhas, tão pálidas, meu Deus, camisolinha em farrapos, descalças,
a vagar gementes no deserto. Chorosa, indaga a menor, sem vê-lo na penumbra:
Onde foi papai? Que fim o levou?
Por mais aflito, não pode sair — ainda não, há que esperar a passagem do
Natal. Ficará até a explosão da última bomba. Tudo menos o quarto do hotel,
medroso de certa gaveta, entre as meias sem pares o brilho da navalha...
Ali no cineminha pode esconder-se de si mesmo. Rei da terra, que foi feito de
quem ele era? Sem mover a cabeça, relanceia o olho no corredor: as dores do
mundo trazidas no focinho úmido da rata piolhenta.
Espavorido, o pé plantado nas cascas de amendoim — a ratazana que belisca a
barra da calça?
Lá fora os sinos, buzinas, gritos de bêbados.
— Outro de menos — resmunga João. — Deste eu estou livre.
Passada a hora pior, eis que é um homem. Está salvo daquele Natal. Outro não
haverá antes de um ano inteiro.
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