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A
EVA MARIA
Por onde anda a Eva ? Maria !
parida das entranhas do universo,
talhada em prosa e verso,
das mãos de Deus, divina alquimia.
Por onde anda você, tão a toa,
no altar da hipocrisia, embutida,
pois te chamaram, um dia, pervertida,
e esqueceste de ti, ó leoa.
Por onde anda você em pilhéria,
pela costela de Adão, submissa,
obrigações, deveres e a missa,
no deus lhe pague por esta miséria.
Por que não gritas, “sou o paraíso”,
que um dia concedeu ao Adão,
o direito de ser um João,
da corte ao seu fêmea, Narciso.
Enfim, por onde andam, as Veras,
as Paulas, Cristinas e Adrianas,
Josefinas, Reginas e Anas ?
todas Marias... Evas quimeras...
Evas das entranhas parideiras;
altares do amor... masmorras da dor...
Marias, estranhas prisioneiras,
dos Joãos, dos Joãozinhos, do pudor...
(Paulo Mendonça. Editado à pag 137 do
livro Mulher
Um Resgate Íntimo)
Eu
queria trazer-te uns versos muito lindos
Eu
queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
(Mário
Quintana)

Os
Poemas
Os
poemas são pássaros que chegam
não
se sabe de onde e pousam
no
livro que lês.
Quando
fechas o livro, eles alçam vôo
como
de um alçapão.
Eles
não têm pouso
nem
porto
alimentam-se
um instante em cada par de mãos
e
partem.
E
olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no
maravilhado espanto de saberes
que
o alimento deles já estava em ti...
(Mário
Quintana)
Amor
é fogo que arde sem se ver;
É
ferida que dói e não se sente;
É
um contentamento descontente;
É
dor que desatina sem doer;
É
um não querer mais que bem querer;
É
solitário andar por entre a gente;
É
nunca contentar-se de contente;
É
cuidar que se ganha em se perder;
É
querer estar preso por vontade;
É
servir a quem vence, o vencedor;
É
ter com quem nos mata lealdade.
Mas
como causar pode seu favor
Nos
corações humanos amizade,
Se
tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luiz
Vaz de Camões)
O
amor é como um punhal
Com
dois gumes fatais.
Sofre
quem não ama,
Quem
ama sofre mais.
(Menotti
Del Picchia)
Soneto
Da Fidelidade
De todo ao meu amor serei
atento
Antes, e com tal zelo, e
sempre e tanto
Que mesmo em face do maior
encanto
Dele se encante mais meu
pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão
momento
E em seu louvor hei de
espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar
meu pranto
Ao seu pesar ou seu
contentamento.
E assim, quando mais tarde
me procure
Quem sabe a morte, angústia
de quem vive
Quem sabe a solidão, fim
de quem ama.
Eu possa dizer do amor (que
tive):
Que não seja imortal,
posto que é chama
Mas que seja infinito
enquanto dure.
(Vinícius de Moraes)
Presságio
O
AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(Fernando
Pessoa)
Sempre quis um amor
Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse.
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo no clarão da amanhecice.
Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice,
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.
Sempre quis um amor cujo
"BOM DIA!"
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.
Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo,
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.
Sempre quis um
amor
que vivesse a
felicidade
sem reclamar
dela ou disso.
Sempre quis um
amor não omisso
e que suas estórias
me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.
(Elisa Lucinda)
Recordação
Quando em meu peito as aflições rebentam
Eivadas de sofrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em círculos de ferro, com tal força,
Que dele o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de sofrer cansada,
Bem que afeita a sofrer, sequer não pode
Clamar: Senhor, piedade - e que os meus olhos
Rebeldes, uma lágrima não vertem
Do mar d'angústias que meu peito oprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso
Que a sós contigo, em prática serena,
Melhor futuro me augurava, as doces
Palavras tuas, sôfregos, atentos
Sorvendo meus ouvidos, - nos teus olhos
Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastara ainda
por que de os ver me saciasse!... O pranto
Então dos olhos meus corre espontâneo,
Que não mais te verei. - Em tal pensando
De martírios calar sinto em meu peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto sofre.
(Gonçalves Dias)
O
correr da vida embrulha tudo.
A
vida é assim: esquenta e esfria,
aperta
e daí afrouxa,
sossega
depois desinquieta.
O
que ela quer da gente é CORAGEM".
(Guimarães
Rosa)
Sou um guardador de
rebanhos,
O rebanho é os meus
pensamentos
E os meus pensamentos são
todos sensações.
Penso com os olhos e com os
ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e
cheirá-la
E comer um fruto é
saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de
calor
Me sinto triste de gozá-lo
tanto.
E me deito ao comprido na
erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo
(deitado na realidade),
Sei a verdade e sou feliz.
(Fernando Pessoa)
Se
alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo
que é um emissário meu,
Não
acredites, nem que seja eu;
Que
o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater
sequer à porta irreal do céu.
Mas
se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém
bater, fores a porta abrir
E
encontrares alguém como que à espera
De
ousar bater, medita um pouco.
Esse
era meu emissário e eu e o que comporta
O
meu orgulho do que desespera.
Abre
a quem não bater à tua porta!
(Fernando
Pessoa)
Das Utopias
Se as coisas são inatingíveis...
ora!
Não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos se não
fora
A mágica presença das estrelas!
(Mário Quintana)
A noite
vai descendo,
muda
e calma...
Meu
doce amor, tu beijas
a
minha alma beijando
nesta
hora a minha boca.
(Florbela
Espanca)
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