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POESIAS em CLICKAMORES.COM

A

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo...

Decerto não gostou lá muito do que via...

E foi logo inventando o outro mundo.

(Mário Quintana)

 

DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto...

Milagre é acreditarem nisso tudo!

(Mário Quintana)

 

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu, agora - que desfecho!

Já nem penso mais em ti...

Mas será que nunca deixo

De lembrar que te esqueci?

(Mário Quintana)

 

DA DISCRIÇÃO

Não te abras com teu amigo

Que ele um outro amigo tem.

E o amigo do teu amigo

Possui amigos também...

(Mário Quintana)

 

O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço

- traço a traço -

às vezes me pinto nuvem,

às vezes me pinto árvore...

 

às vezes me pinto coisas

de que nem há mais lembrança...

ou coisas que não existem

mas que um dia existirão...

 

e, desta lida, em que busco

- pouco a pouco -

minha eterna semelhaça,

 

no final, que restará?

Um desenho de criança...

Corrigido por um louco!

(Mário Quintana)

 

OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os monstros.

Não subas aos sótãos - onde

Os deuses, por trás das suas máscaras,

Ocultam o próprio enigma. 

Não desças, não subas, fica.

O mistério está é na tua vida!

E é um sonho louco este nosso mundo...

(Mário Quintana)

 

A CANÇÃO DA VIDA

A vida é louca

a vida á uma sarabanda

é um corrupio...

A vida múltipla dá-se as mãos como um bando

de raparigas em flor

e está cantando

em torno a ti:

Como eu sou bela

amor!

Entra em mim, como em uma tela

de Renoir

enquanto é primavera,

enquanto o mundo

não poluir

o azul do ar!

Não vás ficar

não vás ficar

aí...

como um salso chorando

na beira do rio...

(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

(Mário Quintana)

 

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste

E belo, apenas da sua tristeza.

Não vem de ti essa tristeza

Mas das mudanças do Tempo,

Que ora nos traz esperanças

Ora nos dá incerteza...

Nem importa, ao velho Tempo,

Que sejas fiel ou infiel...

Eu fico, junto à correnteza,

Olhando as horas tão breves...

E das cartas que me escreves

Faço barcos de papel!

(Mário Quintana)

 

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios...

 

Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida - a verdadeira -

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.

 

Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.

 

E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém - ao voltar a si da vida -

acaso lhes indaga que horas são...

(Mário Quintana)

 


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