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A
Poesias de Amor
Amor
é fogo que arde sem se ver;
É
ferida que dói e não se sente;
É
um contentamento descontente;
É
dor que desatina sem doer;
É
um não querer mais que bem querer;
É
solitário andar por entre a gente;
É
nunca contentar-se de contente;
É
cuidar que se ganha em se perder;
É
querer estar preso por vontade;
É
servir a quem vence, o vencedor;
É
ter com quem nos mata lealdade.
Mas
como causar pode seu favor
Nos
corações humanos amizade,
Se
tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luiz
Vaz de Camões)
O
amor é como um punhal
Com
dois gumes fatais.
Sofre
quem não ama,
Quem
ama sofre mais.
(M.
Del Picchia)
Soneto
Da Fidelidade
De todo ao meu amor serei
atento
Antes, e com tal zelo, e
sempre e tanto
Que mesmo em face do maior
encanto
Dele se encante mais meu
pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão
momento
E em seu louvor hei de
espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar
meu pranto
Ao seu pesar ou seu
contentamento.
E assim, quando mais tarde
me procure
Quem sabe a morte, angústia
de quem vive
Quem sabe a solidão, fim
de quem ama.
Eu possa dizer do amor (que
tive):
Que não seja imortal,
posto que é chama
Mas que seja infinito
enquanto dure.
(Vinícius de Moraes)
Presságio
O
AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(Fernando
Pessoa)
Da
chegada do amor
Sempre quis um amor que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse. Que quando dormisse ressonasse confiança
no sopro do sono e trouxesse beijo no clarão da amanhecice.
Sempre quis um amor que coubesse
no que me disse.
Sempre quis uma meninice entre menino e senhor uma cachorrice, onde tanto
pudesse a sem-vergonhice do macho quanto a sabedoria do sabedor.
Sempre quis um amor cujo
"BOM DIA!" morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro coisa da mesma embocadura sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas cuja rede complexa do pano de fundo dos seres não
assustasse.
Sempre quis um amor que não se incomodasse quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis uma amor que não se chateasse diante das diferenças.
Agora, diante da encomenda metade
de mim rasga afoita o embrulho e a outra metade é o futuro de saber o segredo
que enrola o laço, é observar o desenho do invólucro e compará-lo com a
calma da alma o seu conteúdo.
Contudo sempre quis um amor que me coubesse futuro e me alternasse em menina e
adulto que ora eu fosse o fácil, o sério e ora um doce mistério que ora eu
fosse medo-asneira e ora eu fosse brincadeira ultra-sonografia do furor, sempre
quis um amor que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor que acontecesse sem esforço sem medo da inspiração por
ele acabar.
Sempre quis um amor de abafar, (não o caso) mas cuja demora de ocaso estivesse
imensamente nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor com definição
de quero sem o lero-lero da falsa sedução. Eu sempre disse não à constituição
dos séculos que diz que o "garantido" amor é a sua negação.
Sempre quis um amor que gozasse e que pouco antes de chegar a esse céu se
anunciasse.
(Elisa Lucinda)
A noite
vai descendo,
muda
e calma...
Meu
doce amor, tu beijas
a
minha alma beijando
nesta
hora a minha boca.
(Florbela
Espanca)
Quero
um beijo sem fim,
que
dure a vida inteira e
aplaque
o meu desejo!
(Olavo
Bilac)
Ó
lábios, cujo riso me
tira,
e por cujos
dulcíssimos
favores
talvez
o próprio
Júpiter
suspira!
(Bocage)
Tua
boca é um vinho
delicioso
que se derrama
na
minha molhando-me
lábios
e dentes.
(Cânticos
dos Cânticos 7:9)
E
frustrada a esperança,
ó
bem-amada, dá-me
a
mão para que nela
deposite
um beijo.
(Leopardi)
Amo-te
tanto!
E
nunca te beijei...
E
nesse beijo, amor, que eu
não
te dei guardo os versos
mais
lindos que te fiz!
(Florbela
Espanca)
E
quem na vida
não
amara um dia?
E
nunca despertara
ao
som de um beijo?
(Castro
Alves)
Ardo
e suspiro!
Como
o dia tarda em que
meus
lábios possam
ser
beijados:
possam
ser mordidos!
(Olavo
Bilac)
Amor e Medo
Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
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