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Há
coisas que só poderei go
SE EU TIVER APENAS UM ANO A MAIS DE VIDA
Rubem
Alves
Faz cinco
anos que um grupo de amigos se reúne comigo para ler
poesia. Para que ler poesia? Para a gente ficar mais tranqüilo
e mais bonito. Mas não me entendam mal. Já observaram os
urubus - como eles voam em meio à ventania? Eles nem
batem as asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito
de ser chama-se sabedoria. A poesia nos torna mais sábios,
retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da
vida nos perturba. Drummond, escrevendo sobre a Cecília
Meireles, disse: "Não me parecia criatura
inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços
de sua presença entre nós, marcada por gestos de
cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que
ela não estava onde nós a víamos. Por onde erraria a
verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um
curioso, admitiu ser seu principal defeito 'uma certa ausência
do mundo'? Do mundo como teatro, em que cada espectador se
sente impelido a tomar parte frenética no espetáculo,
sim; mas não, porém, do mundo das essências, em que a
vida é mais intensa porque se desenvolve em um estado
puro, sem atritos, liberta das contradições da existência".
Pois é
isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos
caminhos da nossa própria verdade, os caminhos onde mora
o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia é certo
que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas
terapias se transformassem em concertos de poesia!
Pois
aconteceu que, numa dessas reuniões, quando líamos
trechos da Agenda 2001 - Carpe Diem, encontramos, no dia 2
de fevereiro, essa afirmação de Gandhi: "Eu nunca
acreditei que a sobrevivência fosse um valor último. A
vida, para ser bela, deve estar cercada de vontade, de
bondade e de liberdade. Essas são coisas pelas quais vale
a pena morrer." Essas palavras provocaram um silêncio
meditativo, até que um dos membros do grupo, que se chama
"Canoeiros", sugeriu que fizéssemos um exercício
espiritual. Um joguinho de "faz-de-conta". Vamos
fazer de conta de sabemos que temos apenas um ano mais de
vida. Como é que viveremos, sabendo que o tempo é curto,
"tempus fugit"?
A consciência
da morte nos dá uma maravilhosa lucidez. D. Juan, o bruxo
do livro "Viagem a Ixtlan", advertia o seu discípulo:
"Essa bem pode ser a sua última batalha sobre a
terra". Sim, bem pode ser.
Somente os
tolos pensam de outra forma. E se ela pode ser a última
batalha, ela deve ser uma batalha que valha a pena. E, com
isso, nos libertamos de uma infinidade de coisas tolas e
mesquinha que permitimos se aninhem em nossos pensamentos
e coração. Resta então a pergunta: "O que é o
essencial?" Um conhecido meu, místico e teólogo da
Igreja Ortodoxa Russa (seu livro - maravilhoso -
"Para a vida do mundo", está sendo traduzido e
em breve será publicado pela Paulus), ao saber que tinha
um câncer no cérebro e que lhe restavam não mais que
seis meses de vida, chegou à sua esposa e lhe disse:
"Inicia-se aqui a liturgia final". E, com isso,
começou uma vida nova. As etiquetas sociais não mais
faziam sentido. Passou a receber somente as pessoas que
desejava receber, os amigos, com quem podia compartilhar
seus sentimentos. Eliot se refere a um tempo em que
ficamos livres da compulsão prática - fazer, fazer,
fazer. Não havia mais nada a fazer. Era hora de se
entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenários
que ele amava, ouvir as músicas que lhe davam prazer, ler
os textos antigos que o haviam alimentado.
O fato é
que, sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos de
morte e é preciso viver a vida com sabedoria para que
ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos
cerca.
Lembrei-me
das palavras de Walt Whitman: "Quem anda duzentos
metros sem vontade/ anda seguindo o próprio funeral /
vestindo a própria mortalha..." Pensei então nas
minhas longas caminhadas pelo meu próprio funeral,
fazendo aquilo que não desejo fazer, fazendo porque
outros desejam que eu faça.
"Sou
o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos
outros fizeram de mim" - Álvaro de Campos. Sou esse
intervalo, esse vazio - de um lado o meu desejo (onde foi
que o perdi?); do outro lado o desejo dos outros que
esperam coisas de mim. Não, não são os inimigos que me
impõem o intervalo. Inimigos - não lhes dou a menor
importância. Os desejos que me pegam são os desejos das
pessoas que amo - anzóis na carne. Como tenho raiva do
Antoine de Saint Exupéri - "tornamo-nos eternamente
responsáveis por aqueles que cativamos..." Mas isso
não é terrível? Ser responsável por tanta gente?
Cristo, por amar demais, terminou na cruz. Embora não
saibamos, o amor também mata.
Então,
abandonar o amor? Não. Mas é preciso escolher. Porque o
tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar
todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os
livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas
que desejo. É necessário aprender a arte de "abrir
mão" - a fim de nos dedicarmos àquilo que é
essencial.
Aí eu
comecei a pensar nas coisas que amo e que abandonei -
vejam só: nesse preciso momento me dei conta de que, por
causa dessa crônica não liguei a fonte que faz um
barulhinho de água e nem pus nenhuma música no meu
tocador de CDs, a pressa era demais, a obrigação era
mais forte. Tudo bem agora, a fonte faz o seu barulhinho e
o Arthur Moreira Lima toca minha sonata favorita de
Mozart, em lá maior KV 331 - coisas que amo e abandonei.
Eu, mau leitor de poesia! Poesia lida e não vivida! Não
levei a sério o dito pelo Fernando Pessoa: "Ai, que
prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não
o fazer! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas
o melhor do mundo são as crianças..."
Sempre fui
louco por jardins. Uns acham que eu não acredito em Deus.
Como não acreditar em Deus se há jardins? Um jardim é a
face visível de Deus. E essa face me basta. Não tenho
necessidade de ir olhar atrás das estrelas... Escrevi inúmeros
textos sobre jardins. Num jardim estou no paraíso. Mas,
que foi que fiz com o meu jardim? Abandonei. A caixa das
abelhinhas apodreceu, caiu a tampa e eu não fiz nada.
Cresceu o mato e eu não fiz nada. Da fonte tirei os
peixes, coitados... De lugar de prazer, onde se assentar
em abençoada vadiação contemplativa, meu jardim virou
um lugar de passagem.
Abandonei
o meu amigo, por causa do dever. Para o inferno com o
dever! Vou mesmo é cuidar do meu jardim. Por prazer meu.
E pela alegria das minhas netas. Vou reformar a fonte, vou
fazer um balanço (que os paulistas insistem em chamar de
balança...), vou reformar o gramado, vou refazer a casa
das abelhinhas, vou fazer uma cobertura para as orquídeas.
E mais, vou fazer uma "casinha de bruxa", cheia
de brinquedos, para as minhas netas, a Mariana, a Camila,
a Ana Carolina, a Rafaela e a Bruna... Quero brincar com
elas. Breve elas terão crescido e não mais terei netas
com quem brincar. "Mas o melhor do mundo são as
crianças..."
Vou voltar
a tocar piano - coisas fáceis: a "Fantasia", de
Mozart, a "Träumerai", de Schumann, o Improviso
op. 90. n. 4 de Schubert, o prelúdio da "Gota dágua",
de Chopin, alguns adágios de sonatas de Beethoven.
Quero
ouvir música: aquelas que fazem parte da minha alma. Pois
a alma, no seu lugar mais fundo, está cheia de música.
E, sem precisar me desculpar pelo meu gosto, digo que amo
música erudita. Música erudita é aquela que nos faz
comungar com a eternidade. As outras, são bonitas e
gostosas - mas são coisa do tempo.
Quero
reler livros que já li. Vou relê-los porque é sempre
uma alegria caminhar por caminhos conhecidos e esquecidos.
É como se fosse pela primeira vez.
Não quero
novidades. Não vou comprar apartamentos ou terrenos. Não
quero viajar por lugares que desconheço. Eliot: "E
ao final de nossas longas explorações chegaremos
finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então
pela primeira vez..." É isso. Voltar às minhas
origens, às coisas de Minas que tanto amo, a cozinha, os
jardins de trevo, malva, romãs e manacás, as montanhas,
os riachinhos, as caminhadas...
Mas quero
meus amigos. Não do jeito do Roberto Carlos que queria
ter um milhão de amigos. Não é possível ter um milhão
de amigos. Quero meus poucos amigos. Amigos: pessoas em
cuja presença não é preciso falar...
Estou
tentando, estou começando. Espero que consiga...
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